Sobre os escrachos

Texto publicado na revista Merlino presente! Caderno de combate pela memória – junho 2013

 

O ano de 2012, ano da instalação da Comissão Nacional da Verdade, votada no parlamento sem levar em nenhuma consideração as sugestões das vítimas da ditadura, familiares de mortos e ex-presos, marcou o início de uma luta de tipo novo. Jovens, ligados ou não familiarmente às vítimas, sensíveis à necessidade de lutar pelo restabelecimento da Memória das lutas contra a ditadura, assumiram como suas as experiências já em prática no Chile e na Argentina, de clamar por Justiça através de escrachos e esculachos.

 

Dois movimentos têm se distinguido por essas práticas que levam oxigênio e atualizam a luta dos velhos militantes. O Levante Popular da Juventude realizou pelo Brasil inteiro atos, alguns mais audaciosos, outros mais modestos, voltados para chamar a atenção da sociedade brasileira para esses crimes que muitos querem ver sepultados. Destacam-se a ação de escracho contra o torturador David dos Santos Araújo, ex-delegado do DOPS, conhecido como “Capitão Lisboa” em suas atividades de tortura no DOI-CODI de São Paulo, responsável, entre outras, pela tortura até a morte do militante do MRT Joaquim Alencar de Seixas. No dia 26 de março de 2012 militantes se agruparam em frente à empresa de segurança privada, Dacala, de propriedade daquele torturador, no bairro de Santo Amaro, São Paulo, para denunciar aos vizinhos e à sociedade quem era aquele homem.

 

Em 14 de maio de 2012 o Levante realizou mais dois escrachos. No Rio de Janeiro, militantes foram ao Flamengo, em frente da casa de José Antonio Nogueira Belham, general do Exército reformado, ex Chefe do DOI-CODI do Rio de Janeiro, responsável, entre outras barbaridades, pela tortura e morte de Rubens Paiva. No mesmo dia, militantes foram até a casa de torturador conhecido com “Capitão Maurício”, hoje coronel reformado do Exército, Maurício Lopes de Lima, no Guarujá, denunciar aos vizinhos o papel que ele teve no DOI-CODI, na tortura, entre outras, de Dilma Rousseff e do Frei Tito, que sucumbiu à memória da dor sofrida.

 

Outro movimento tem se distinguido pelas ações em prol da Memória, organizando esculachos contra os torturadores: a Frente de Esculacho Popular. Procurando, em sua organização, reunir não apenas jovens mas também os velhos lutadores, a Frente tem feito preceder seus atos por uma colagem de cartazes feita na véspera, no bairro, explicando qual a responsabilidade dos alvos de seus protestos. Outro diferencial deste movimento é a sensibilidade para a relação entre a violência da ditadura e a violência policial hoje, contra pobres, pretos e periferia.

 

Destacam-se, entre as ações realizadas, o ato de esculacho em frente à casa do médico legista Harry Shibata, ex-diretor do Instituto Médico-Legal de São Paulo, em 7 de abril de 2012, no bairro de Pinheiros. As redondezas da casa já estavam com cartazes que denunciavam os laudos falsos, por exemplo, da militante da ALN Sonia de Morais Angel, barbaramente torturada, e de Vladimir Herzog, que Shibata atestou ter se suicidado. Com o mesmo tipo de organização, a Frente de Esculacho também realizou, em 22 de outubro, o ato em frente à casa do torturador do DOI-CODI, Homero César Machado, ex-militar, no bairro de Cerqueira César, a poucos quarteirões da Avenida Paulista. Hoje há certeza de que Homero participou da tortura e morte de Virgílio Gomes da Silva, “Jonas”, militante da ALN, e também da tortura de Frei Tito.

 

Por fim, no primeiro esculacho do ano de 2013, em 4 de maio, os militantes e apoiantes da Frente de Esculacho viajaram até Itatiba, a cerca de 80 km de São Paulo, para denunciar que o delegado nomeado para a cidade pelo governador Alkmin no início deste ano, Carlos Alberto Augusto, o “Carlinhos Metralha”, não passa de um conhecido torturador do tempo da ditadura, integrante da equipe do famigerado delegado Sérgio Fleury. Ele foi responsável pelo sequestro do militante Edgard de Aquino Duarte, em 1971, até hoje desaparecido, e teve papel fundamental no massacre da Chácara S. Bento, em Recife, em 1973, no qual foram assassinados seis militantes da VPR. Com faixas e cartazes explicando quem era o delegado da cidade, a FEP desmascarou o torturador.

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